sábado, 10 de setembro de 2016

Eu sobrevivi!


Sempre me recusei a falar, pensar ou lidar com o assunto. Mas, ao descobrir que este é o mês de prevenção ao suicídio, resolvi falar sobre uma experiência. Própria...
Quando tinha 20 anos, já morava sozinha. Curtia muito. Trabalhava muito. E tinha amizades que, hoje posso dizer, eram extremamente nocivas e me sugavam de todas formas. Um dia, uma dessas pessoas disse que havia encontrado uma pessoa ideal pra mim: divorciado, inteligente, maduro e muito divertido. Com todas essas qualidades, quem não toparia?
Fomos apresentados em um barzinho. Ele era 34 anos mais velho que eu. Não me importei. Afinal, ele realmente se mostrou divertido. Dançamos muito. E aí começamos a nos ver com mais e mais frequência. Ele me dava flores, atenção, carinho. Ele foi o primeiro cara que deixei entrar na minha casa. Na terceira semana que estávamos saindo, ele me pediu pra ir morar com ele. Eu seria o quarto casamento dele. Falei que meus planos eram diferentes, que queria casar de verdade, ter filhos (ele já tinha 3, mais velhos que eu). E ele disse pra eu ter paciência, que as coisas poderiam ir chegando aos poucos.
Ao mesmo tempo, a ex-mulher dele, um pouco mais velha que eu, não parava de ligar pra ele. Fazia ameaças graves que começaram a vir para mim também. Mas eu estava muito envolvida e não ligava. E, estranhamente, a amiga que havia me apresentado a ele começou a não gostar mais dele. Os presentes eram ironizados, as ligações, quando eu estava com ele eram constantes. Mas fui em frente.
Neste meio tempo, perdi o emprego (em circunstancias bem estranhas) e não poderia mais pagar o aluguel. Então, fiquei feliz em 2 meses depois, ir morar com ele. Fiquei nervosa pela falta de trabalho. Ele dizia para ter paciência, que não havia necessidade.
E, como diz o velho ditado, mente vazia... Ele trabalhava das 4 da manhã às 18 horas. Eu não era boa dona de casa e ele era viciado em limpeza. Ele já não gostava de sair comigo. A não ser para a casa de amigos. Dançar, que era nosso programa favorito, foi simplesmente cortado. Ele saia sozinho com os amigos. O sexo diminuiu a quase zero. Eu só tinha os amigos dele. A ex dele me ameaçava constantemente e eu não podia sair mais sozinha. Tive que prestar queixa.

Mas aí, no auge da minha imaturidade, resolvi que era o momento de ter um filho. Fomos ao médico, fiz diversos exames, e por um erro medico o diagnóstico era de que eu não poderia ter filhos. Fiquei devastada e deprimida. Desenvolvi o que ele chamou de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Vivia medicada, na cama. Levantava pra comer, tomava mais remédio e dormia de novo.
Depois de um tempo, ele e minha família fizeram um tipo de “intervenção” para que eu parasse com os remédios. Me reergui, voltei  a estudar o que amava. Fui melhorando aos poucos e os problemas em casa voltaram. Ele dizia que depois de voltar a universidade não cuidava mais da casa nem dele, que eu só pensava em mim. Deixei a faculdade e procurei um trabalho perto de casa, praticamente em frente. E ele não gostou mesmo assim. As traições dele aumentaram. E as brigas também. Ele chegou a flertar com a manicure da minha madrasta dentro da casa do meu pai. E eu relevei.

Como os filhos dele se afastaram porque eu era mais nova e, como religiosos, ainda esperavam que ele voltasse para a mãe, primeira esposa, me odiavam. Escrevi para uma delas e a convenci a voltar a se relacionar com ele. Os outros dois vieram logo atrás. Ainda não falavam comigo, mas o visitavam, saiam com ele... Me senti muito feliz.
Uma das irmãs dele, infernizava a minha vida de todas as formas. Fofocas, intrigas, brigas. A ponto de termos que proibi-la de entrar em casa. Outra, evangélica fervorosa, frequentava constantemente nossa casa e dizia coisas do tipo “pra mim só é casado quem casa na igreja”, ou, “a L... (primeira mulher dele) é que era mulher de verdade”. Ele a defendia. Dizia que ela era mais velha e que não ia tira-la da vida dele.
Uma noite, fomos a um barzinho com um casal de amigos. Ele bebeu, se excedeu, e disse, dentre outras coisas, em alto e bom som: “Graças a Deus você não pode ter filhos. Imagina, não sabe nem cuidar da casa. Sorte minha que já tive três, ótimos filhos, com a mulher certa”. O sangue subiu pra minha cabeça. Joguei o copo de cerveja no rosto dele e comecei a agredi-lo fisicamente. Queria que ele sentisse tudo que eu senti por dentro, na própria pele. Descarreguei todo o ódio nele.
A única coisa que ele fez foi me dizer: não volte pra casa. Vá embora. Joguei as chaves no rosto dele e fui para a casa da minha mãe. Depois de tudo que eu tinha passado por ele e por esta relação? Como ele pode dizer isso? Como ele pode fazer isso? Eu vivia para ele. Perdi completamente o equilíbrio. Completamente.
Pela manhã, fui a casa dele buscar minhas coisas. Minha tia, que me criou junto com minha mãe, foi junto comigo. Não pensei muito bem, não tinha dormido direito. Ele nem olhava pra mim, como se eu tivesse sido a culpada de tudo. Eu encontrei três pacotes de veneno de rato. Misturei com água. Bebi sem que ninguém visse. E me tranquei no banheiro. Fiquei la quietinha esperando o remédio fazer efeito. Eu só queria que a dor passasse e que ele soubesse o quanto eu havia sofrido.
Perceberam a demora. Pediram para que eu abrisse a porta. Não fiz. Arrombaram a porta e encontraram os pacotes. Nunca vou esquecer o rosto da minha tinha desesperada. Correram e me levaram para o hospital. Fiz diversas lavagens estomacais e ouvi de tudo dos enfermeiros. Os hospitais não estavam preparados para receber pessoas com este problema.
Enquanto minha tia chorava copiosamente, ele ligava para todos os amigos contanto que eu tentei me matar por causa dele. Que eu era maluca. Depois das lavagens, simplesmente me liberaram do hospital. Voltei pra casa da minha mãe e decidi passar uns dias fora da cidade, na casa de um amigo. A única coisa que eu fazia era chorar muito. Eu pensava: “Nem me matar eu consigo, imagina o resto”. Falei com ele todos os dias e, ao fim de uma semana, voltei escondido pra cidade e diretamente pra ele.
Pessoalmente ele me tratava ainda pior.  Arranjei outro trabalho. E, mesmo morando separados, ainda estávamos juntos.  


Um dia, comecei a sangrar e sentir fortes cólicas. Muito fortes. E sangramento. Incessante. Mas estava tão focada no trabalho que simplesmente aumentei a dose do anticoncepcional (que usava constantemente para não menstruar). Depois de exatos sete dias, a dor passou. Deitei e fiquei quietinha alí pra não deixar de sentir aquele alívio. Quando fui ao banheiro, notei no absorvente uma coisa estranha. Pensei que era um câncer o coisa assim. Mil coisas passaram na cabeça. Chamei ele, que viu e ligou imediatamente pra minha madrasta. Eu havia sofrido um aborto. Culpei a mim mesma, ao médico. Surtei. Ele pediu para que eu tomasse um banho e repousasse. No dia seguinte, fui ao médico sozinha, ele não quis acompanhar. À tarde, fui fazer o ultra som com uma amiga, que logo depois foi ao escritório dele e disse o quanto estava chocada pela forma que ele me tratava. Um detalhe: ela era amiga dele há mais de 40 anos.  Por sorte, o medico me disse que eu não precisaria fazer curetagem, que meu corpo se recuperou muito bem.
Quando voltei pra casa, cheia de culpa, ele ficou me olhando e disse que o filho não era dele. Fiquei ainda mais arrasada. Os amigos dele, que restam meus até hoje, 10 anos depois, vieram até mim e pediam que eu saísse daquela vida. Que eu não merecia aquilo. E eu saí.
Envergonhada, triste. Resolvi recomeçar em um trabalho que eu realmente gostasse. Imprensa. Ajudei na criação e lançamento de um jornal, em seguida, fui pra um maior. E entrei em outro “relacionamento destrutivo”. Muito, muito pior que o primeiro. Só para se ter um exemplo, depois de uma tentativa de violência sexual, fui agredida fisicamente por ele. Tentei me matar novamente. De outras formas. Exagerando na bebida, nas festas, indo ao extremo de tudo. Então eu tive um estalo: o que eu estou fazendo da minha vida?

Com a ajuda da minha mãe, mudei de cidade e de vida (um dia conto todos os detalhes para vocês). Tudo que me fazia mal foi cortado, aos poucos. Afastei-me dos amigos que me sugavam. Perdi o medo de fazer coisas novas. E, depois que conheci a ioga e, anos depois, a terapia, descobri o verdadeiro valor da vida. Eu atraio para mim o que eu emano. E hoje eu procuro emanar somente coisas boas. Tornei-me uma pessoa melhor. Mais forte. Perdi o medo de me colocar em primeiro lugar. E amo, muito, a minha vida. Amo a mim. E nada nem ninguém podem tirar isso de mim.

Se você pensa, ou já pensou alguma vez em suicídio. Lembre-se das pessoas que o amam, lembre do quando você é importante para o Universo e para essas pessoas. Lembre-se que a sua felicidade depende de você, e mais ninguém. Observe o que está emanando. E não desista. Sua vida vai mudar para melhor, assim como a minha mudou. E eu prometo que você vai ser muito, muito feliz! Procure um profissional, um psicólogo que te ajude a tratar a raiz destas coisas que te incomodam. E aproveite cada segundo da sua vida. Você não vai se arrepender.

Eu estou aqui! 

Namastê

  

2 comentários:

  1. Muitas vezes me sinto entediada, cansada, querendo que o tempo, que tudo passe rapidamente, principalmente minha vida. Sempre me senti diferente, como se esse mundo não fosse pra mim, ou eu não fosse pra esse mundo. Quando tinha 14 anos tentei cortar os pulsos, na verdade cortei, mas não morri como pensei que seria, então todos julgaram, me diziam que era falta de Deus, ou de vergonha na cara, porque tinha uma vida toda pela frente, tinha saúde, o que mais eu podia querer?!
    Comecei a namorar, e foi um relacionamento destrutivo pra mim. Fazia tudo por ele, ele me humilhava perto de amigos dele, me tratava bem perto de familiares, dizia que me amava, mas não gostava de sair comigo, dizia que tinha ciúmes mas me traía. Bom, saí destruída. Com 17 anos terminei com ele e tentei me matar de novo, nessa época já fazia tratamento pra depressão, então tomei todos os meus remédios de uma vez só e me deitei para morrer, não conseguia mais me mexer direito, perdi a noção, comecei a convulsionar, estava sozinha em casa, então me arrependi, senti medo, achei que ia morrer, mas não queria mais morrer, um desespero, vontade de voltar atrás, mas era tarde... Não recordo direito, mas lembro que minha mãe chegou do trabalho, me viu daquele jeito, me levou pro plantão, fizeram lavagem, carvão ativado, mas o pior de tudo foi olhar pra minha mãe de novo, porque naquela hora achei que seria melhor se tivesse morrido... Aquela tristeza que vi nela me matou. E la só me olhava e chorava, e eu também, porque era só o que conseguia.
    Depois fiquei um tempo "de molho", aí então comecei a sair pra festas (coisas que nem conhecia), cinema, shopping, sempre uma novidade, e gostava muito de tudo. Pensava às vezes 'Ainda bem que não morri aquela vez'.
    Com 18 anos conheci meu esposo, ele tinha 38 anos, mas foi paixão, encanto, amor, e com 4 meses de namoro decidimos morar juntos pra ficar pertinho todo dia. Ele começou a se mostrar ciumento, ligava toda hora, queria saber onde eu estava, o que tava fazendo, que hora ia pra casa, com quem e o que tava falando, então fiquei chateada um tempo com isso, até que um dia disse pra ele que se ia ser assim não ia dar certo e era melhor acabar com tudo de uma vez. Ele me disse que ia mudar porque me amava e não queria me perder, eu não acreditei muito na promessa mas resolvi dar uma chance a ele.
    Agora tenho 26 anos, e meu esposo 46, temos um filho de 5 anos e estou grávida de 6 meses. Temos dois cachorros, uma gata e até uma galinha de estimação.
    Contei tudo isso pra dizer que muitas vezes não vemos saída para os problemas e sentimentos que temos em nosso coração. A família muitas vezes não sabe como você está triste ou desanimado, e nem imagina que passa em nossos pensamentos mais íntimos. Mas eles nos amam, e não querem nos perder, porque eles se importam conosco e querem nos ver bem, mas muitas vezes temos que falar como nos sentimos pra que vejam isso. Conversem, falem, procurem ajuda. Não espere ser tarde para querer voltar atrás, porque a felicidade são os pequenos momentos perto de quem amamos, e não há nada melhor que se permitir viver esses momentos.

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    1. Estou muito agradecida e feliz por você ter dividido sua história conosco. Quando nos colocamos em primeiro lugar, e valorizamos a nós mesmos, tudo muda. Você é um exemplo disso. Desejo muita paz, saúde e felicidade para você e sua família. E sim, falar ajuda muito.

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